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A eternidade de um narrador: Milton Hatoum toma posse na ABL e consagra a voz do Amazonas

Mais que um escritor, um intérprete da alma brasileira: conheça a trajetória, o impacto literário e o legado do novo imortal manauara na Casa de Machado de Assis.

Escritor Milton Hatoum sentado na bancada de madeira entalhada da Academia Brasileira de Letras durante sua cerimônia de posse.
Milton Hatoum ocupa seu assento na Academia Brasileira de Letras, levando a alma de Manaus para o centro da intelectualidade nacional. (Foto: Reprodução / Instagram @abletras).

Nascido em Manaus em 1952, filho de imigrantes libaneses, Milton Hatoum construiu uma obra que é um verdadeiro mapa sentimental da nossa capital. Formado em Arquitetura, ele nunca abandonou as raízes fincadas no Centro Histórico de Manaus, onde os casarões e o Rio Negro servem de pano de fundo para dramas humanos universais.

Ao longo de sua carreira, Hatoum tornou-se um dos autores brasileiros mais premiados de todos os tempos, conquistando por três vezes o Prêmio Jabuti, além do prestigiado Prêmio Portugal Telecom. Sua escrita, densa e visual, foi traduzida para mais de 15 idiomas, levando a identidade amazônida aos principais centros literários do planeta.

O Arquiteto da Memória: Quem é Milton Hatoum?

Close de perfil do escritor amazonense Milton Hatoum, com olhar reflexivo.
Com um olhar atento sobre o tempo, Hatoum transformou a geografia do Amazonas em literatura universal. (Foto: Reprodução / Instagram @miltonhatoum).

Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum cresceu no auge das transformações da capital. Filho de imigrantes libaneses que se estabeleceram no comércio local, ele conviveu desde cedo com a dualidade cultural: as histórias dos antepassados do Oriente Médio e a realidade exuberante e, por vezes, cruel da Amazônia. Essa mistura de "sangue libanês e alma cabocla" tornou-se o DNA de seus personagens, que vivem sempre o conflito entre o pertencimento e o exílio.

Aos 15 anos, Hatoum deixou Manaus para estudar em Brasília e, posteriormente, em São Paulo. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela USP em 1977, uma escolha que marcaria profundamente seu estilo literário. Como um arquiteto, Hatoum não apenas escreve; ele projeta cidades em suas páginas. Quem lê suas obras consegue caminhar pelas ruas de Manaus, sentindo a textura das calçadas e o peso do calor úmido, graças ao seu rigor com o espaço físico e a história urbana.

Em 1980, Hatoum mudou-se para a França, onde realizou pós-graduação na Universidade de Paris III. Foi no exílio europeu, longe do calor da floresta, que ele começou a escrever seu primeiro romance. Esse distanciamento geográfico permitiu que ele olhasse para Manaus com uma lente mais nítida, livre do sentimentalismo fácil, mas carregada de uma melancolia reflexiva. Ao retornar ao Brasil, tornou-se professor de literatura na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), cargo que ocupou até se mudar definitivamente para São Paulo em 1999.

O grande mérito histórico de Hatoum foi retirar a literatura sobre a Amazônia da prateleira do "exotismo". Antes dele, muitas obras focavam apenas na fauna, flora ou em um folclore simplista. Hatoum subverteu isso ao focar na Psicologia Amazônida. Ele mostrou que o drama de uma família em Manaus as brigas entre irmãos, os amores proibidos e as traições políticas é tão sofisticado quanto as tragédias gregas ou os dramas russos de Dostoiévski.

Mais do que um acadêmico, Hatoum é um intelectual público ativo. Suas crônicas e entrevistas são marcadas por uma defesa ferrenha da preservação da Amazônia e pela crítica ao apagamento da memória histórica. Sua posse na ABL não é apenas um reconhecimento ao seu talento com as letras, mas um selo de importância política para o Amazonas no cenário nacional.

Grandes Obras e o Sucesso nas Telas 

A escrita de Hatoum rompeu as barreiras dos livros e ganhou as casas de milhões de brasileiros através de adaptações magistrais para o audiovisual:

  • Dois Irmãos (2001): Sua obra mais famosa, que deu origem à aclamada minissérie da Rede Globo em 2017. Estrelando Cauã Reymond, a produção trouxe a Manaus do século XX para a TV aberta, imortalizando a saga dos gêmeos Yaqub e Omar.
  • Cinzas do Norte (2005): Romance vencedor do Jabuti que mergulha na resistência política e na amizade durante os tempos sombrios da ditadura militar no Amazonas.
  • Órfãos do Eldorado (2008): Uma novela que mergulha nos mitos de Parintins e na decadência de uma família seringalista, adaptada para o cinema em 2015.
  • Relato de um Certo Oriente (1989): Sua estreia triunfal, que recentemente também ganhou as telas de cinema sob a direção de Marcelo Gomes.

A Importância para a Literatura Brasileira 

Hatoum é considerado pela crítica o principal herdeiro da tradição de Machado de Assis e Graciliano Ramos, mas com uma pulsação contemporânea. Sua importância reside na capacidade de universalizar o regional.

  • Quebra de Estereótipos: Ele retirou a literatura amazônica do gueto do "exótico" ou "folclórico", provando que os dilemas de uma família em Manaus são tão profundos e universais quanto os de uma família em Londres ou Paris
  • Reflexão sobre a Identidade: Sua obra discute o que significa ser brasileiro a partir de uma margem que, muitas vezes, é tratada como periferia do país.

Principais Prêmios: A Consagração

Milton Hatoum vestindo o fardão da ABL e segurando o diploma de imortalidade acadêmica ao lado de outros acadêmicos.
O momento solene da entrega do diploma que oficializa o autor manauara como membro vitalício da Casa de Machado de Assis. (Foto: Divulgação / ABL).

A carreira de Hatoum é marcada pelo reconhecimento da crítica e do público, sendo um dos autores mais premiados do Brasil:

  • Prêmio Jabuti (3 vezes): Venceu com as obras Relato de um Certo Oriente (1990), Dois Irmãos (2001) e Cinzas do Norte (2006).
  • Prêmio Portugal Telecom: Consagrado por Cinzas do Norte.
  • Prêmio Bravo! Prime de Cultura: Pela relevância de sua obra no cenário nacional.

O Discurso: A Amazônia como Resistência 

Milton Hatoum sendo entrevistado por jornalistas no salão da ABL, vestindo o fardão oficial bordado a ouro.

Em entrevista após a posse, Hatoum reafirmou seu compromisso com a defesa da cultura e da preservação da Amazônia. (Foto: Reprodução / ABL).

Em sua posse, Hatoum não fugiu do debate político e ambiental. Ressaltou que a imortalidade acadêmica deve servir como plataforma para a defesa da floresta e de seus povos. Para ele, o Brasil só será completo quando reconhecer na Amazônia a sua verdadeira certidão de nascimento cultural.

Para o Amazonas, a posse de Hatoum significa que os dilemas, a beleza e a complexidade do nosso "chão" serão ouvidos com ainda mais força. Ele sucede nomes de peso e traz consigo a responsabilidade de manter viva a chama da palavra escrita, agora como um imortal.

Por Roger Pimentel - PanAmazônida

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