Em Rio Branco/AC, Museu dos Povos Acreanos estreia Exposição Inédita de Cartografia Indígena
Com 23 mapas produzidos por agentes agroflorestais, a mostra em Rio Branco transforma a cartografia em ferramenta de luta, identidade e gestão territorial.
| A placa na entrada do Museu dos Povos Acreanos abre o Portal para a resistência dos povos da floresta. (Foto: Luan Moura/FEM). |
O Museu dos Povos Acreanos, na capital Rio Branco, abriu suas portas para uma experiência visual e política necessária: a exposição "Cartografia Indígena – Descolonizando Mente e Espaço". A mostra, que reúne o trabalho técnico e ancestral de diversos povos originários do Acre, propõe uma nova leitura sobre o território amazônico, longe das fronteiras impostas e perto da realidade das florestas.
A entrada é gratuita e a visitação segue aberta até o dia 31 de maio, na Galeria de Exposições Sansão Pereira.
O Acre Indígena: Um Mosaico de Resistência e História
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| Os mapas expostos utilizam uma linguagem própria para retratar os territórios sob a perspectiva dos povos originários. (Foto: Luan Moura/FEM). |
A exposição no Museu dos Povos Acreanos é o reflexo de uma trajetória de luta que define a formação do estado. Atualmente, o Acre abriga 16 povos indígenas, distribuídos em 36 Terras Indígenas (TIs) que ocupam aproximadamente 15% do território estadual. Essa diversidade inclui etnias das famílias linguísticas Pano, Aruak e Katukina, como os Huni Kuin (Kaxinawá), Ashaninka, Madijá (Kulina) e Yawanawá.
Historicamente, os povos do Acre foram protagonistas da resistência durante os dois ciclos da borracha (entre o final do século XIX e meados do XX). Muitos grupos sofreram com o regime dos "correrias" expedições organizadas para expulsar indígenas de suas terras e abrir espaço para os seringais. No entanto, a organização política dessas lideranças a partir da década de 70, com o surgimento da Aliança dos Povos da Floresta, mudou o rumo da história, unindo indígenas e seringueiros na defesa do ecossistema amazônico.
Hoje, a cartografia apresentada na mostra é a evolução dessa luta: o mapa não é mais uma ferramenta do invasor para dividir a terra, mas o registro oficial da posse ancestral e da preservação da biodiversidade, mantida por quem melhor conhece os segredos da floresta.
Mapas como Instrumentos de Resistência
As 23 obras expostas são fruto do Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), mantido pela Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre). Diferente da cartografia tradicional, estes mapas utilizam uma linguagem própria, onde saberes tradicionais e símbolos locais dialogam para delimitar recursos naturais e planejar a gestão ambiental das aldeias.
Além da expressão artística, a exposição destaca o papel estratégico dessas peças. Hoje, os mapas são usados pelos povos indígenas para:
- Mediação de conflitos fundiários;
- Levantamento de recursos naturais;
- Planejamento de gestão ambiental.
Valorização Cultural e Política
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| A cartografia indígena é uma ferramenta estratégica na gestão ambiental e delimitação territorial das aldeias. (Foto: Luan Moura/FEM). |
A mostra é uma parceria entre a CPI-Acre, a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC) e a Fundação Elias Mansour (FEM). Segundo José Frank de Melo Silva, assessor técnico da CPI-Acre, a cartografia indígena traz um sentido de valorização política e defesa de direitos sobre os territórios ancestrais.
Por Dina dos Santos, com informações da Agência de Notícias do Acre.


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